Esqueçam, senhoras e senhores,
todas as convenções que povoam
seus sensos comuns sobre quem são
os exus: vestimentas, gracejos,
um misto de lúgubre e jocoso,
seriedade e fogo, olhar dentro
do outro, álcool e riso frouxo
— práticas corriqueiras nos centros
de umbanda, candomblé e quimbanda.
Nem façam piadas tolas tolas
tolas e engraçadinhas dizendo
que Seu Tranca-Rua é um chaveiro
biruta ou lelé com braba síndrome
de semáforo e pés de cancela,
que Seu Sete Ventanias é
dado a brisas na canela, nuca
e sopé da orelha com agudeza
gélida e miúda do frescor
do Bósforo, túmulo dos fósforos
de brindes de hotéis turco-otomanos.
Pois hoje eu vou lhes apresentar,
meus amigos, o Exu de Milonga
— aliás, a Exu de Milonga,
bela pombagira da calunga.
Ela guarda trejeitos de muda.
E seus olhos carregam o brilho
de passadas luas. Um olhar
que mergulha, mergulha, te afunda,
te inunda. Veste uma saia adunca
rodada com babados de fronha.
Seu rosto tem semblante de lápide.
Seu cheiro tem um quê sem-vergonha.
Exu de Milonga dança feito
neón, dispensa o som do atabaque
pelo do bandonéon, e gosta
mesmo é de gargalhar pros cabróns.
E quando ela morre bem no meio
da sala, nossa!, é lindo de ver!
Cada taco do chão é também
catacumba e o vento é chorizo
mugindo espumas. Silêncio é chio.
O susto, caríssimos, é bruma.
E quando ela morre bem no meio
da sala, é lindo, é lindo de ver!
Quem ousar batê-la nas bochechas
para acordar, vai ouvir — ouvir
e temer: yo quiero dormir mil
años con usted. Usted. Usted.
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