sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Big Bang no divã

Adequadamente poeta.
Desapropriadamente amante.

Das palavras, diga-se.
Porque subvertor
de signos da áurea
ira aureliana
ritmada de patacões bíblicos
severos a encarar revisores.
E, por isso, justo e certeiro,
adequadamente poeta.
Dê-lhe palavras ao vento – céu,
nuvem, sol, firmamento – pois ele
replicará, num bom regurgito
alfaiate, um poema vestido
de nudez de olhar puro, ilibado.

Num fraque de céu,
cartola de nuvem
e monóculo de sol,
o Firmamento vislumbra
o casamento do Horizonte,
vestido de pajem, com uma Ponte
ornada de penas
mil de rouxinol,
assobiando amor vasto
entre as pedras, pedras, pedras,
em cerimônia de cordel,
escrivinhada em papel de pão.

A metáfora nasceu antes
da poesia, quase junto
do momento-chave que o lúdico
fecundou a primeira imagem
e um verso escorreu numa poça,
refletindo a um reles profeta
a criação vindoura de um poeta.

Ser e adequadamente verbo.
E também substantivo. E palavra.

Inadvertidamente.
Ilimitada
-mente.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

que destemida

a flor do cacto
de estimação
de dona Mary
despetalou
desminliguiu
desmereceu
despedaçou
desenxabiu
desguarneceu
desaclimou
desaturdiu
despercebeu
desajustou
desaplaudiu
desfaleceu
e derribou
e despediu
e, Deus, morreu.

e do outro lado,
um outro espinho,
teimoso, triste
e comovido,
chora apertado
novo botão
de flor de cacto

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Pilot Parallel Pen

Eis que um solo de jazz me atravessa inteiro.
Como uma mansidão, entorpecente afago,
me atropelasse todo, de cima a Plutão.
Isso é o que eu acho. Sobre o solo. De jazz.
Eu não sei bem que instrumento é. Mal faço
ideia, na verdade, sobre. Na verdade,
sou péssimo em dar lábios para imaginárias
línguas vibrando em diapasão de rio – alheio
à paz tranquila de jamais pensar ser rio.
Sou muito bom ouvindo e deixando drogar
os tímpanos. Um dom como de quem descasca
tangerinas num strip-tease só. Um dom que
só tem o quê de dom para quem possui o dom.
De sopro. Sim, de sopro. Afinal, ouvidos
contemplativos, marejados, também não
são retardados. Um quem tácito com algo
de sopro a soprar dor reticente, fininha,
aperto mesmo. Deste solo auricular,
pele de gente de tambor a biritar
goles de som do solo de jazz, sobriamente.
Um lamento que não dói, porém, enternece.
Um solo, enfim, de jazz me atravessando os dedos,
que se ajoelham renitentes ante a folha,
orelha branca, branca, branca a receber
brincos de letras góticas e caligráficas.
Um solo de jazz é como um verso na lauda.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Arranha-céu

A calcinha na escada. Uma bela camisola
descartável – camisola descartável? Sim,
camisola descartável, lisinha, diáfana,
semitransparente, antigravitacional
à pele num raríssimo afago de moléculas,
escorreita, perolada. Industrializada.
Inventam de tudo. Bem melhor do que a camisa
social clichê dele feita de camisola.
E feito este imenso parêntese, volte. Lá,
na escada ainda, a calcinha. Uma camisola
descartável. Café da manhã completo para
dois, na mesa junto ao frigobar, com Alka-Seltzer
no lugar do suco de laranja dele. Zero
de ressaca. Vício curioso é a resposta
para o sol do indivíduo. Respondida a dúvida
deste dispensável novo parêntese já
ultrapassado, retorne só mais uma vez.
Três colheres de açúcar. Beba. Sobre os degraus,
ela, a dita cuja de renda, suspiro sôfrego
de um lençol guloso delirando doidivanas.
Tal camisola lambendo sinuosidades.
Pão, café preto e forte, borbulhas espocando
no copo ressentido de uísque. Uma senhora
espreguiçada encontrando-se, com surpresa,
dengo e riso frouxo, frouxo, com sua chegada
sorrateira, carinhosa e canalha, levando
às unhas francesinhas o prazer de roçar,
arranhar displicente sua barba, terraço
de queixo cerrado, céu, céu, céu. O paraíso
é tão somente uma questão de ponto de vista.
Ele, no fundo, sabia, Ele sempre soube.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Pés


Pés que maceram o solo
Pés que acarinham o chão
Pés que se enraízam na terra
Pés que das pernas são mãos
Pés que beijam merda, avoados
Pés que esmagam os grãos
Pés que na rede tem colo
Pés que delimitam lúdicos traçados
Pés que pisam as bagas de uvas
Pés que mimam mínimas poeiras
Pés que esfregam o gramado
Pés que disfarçam o luto da viúva
Pés que padecem tanto na areia
Pés que acertam, rápido, os dentes
Pés que se esquivam com tal receio
Pés que miram, cegos, o mindinho alheio
Pés que caminham, silentes e silentes
Pés que sapateiam “o peito do pé do Pedro é preto”
Pés que beliscam calcanhares qual um escaravelho
Pés que tremem pelas pernas que tremem de espasmos
Pés que admiram, imóveis, na cadeira rodante, o espaço
Pés que se deitam em respeito ao dono de pé
Pés que se levantam quando o dono deitado quer
Pés que assim, em pé, permanecem estáticos
Pés que contemplam o dono nunca mais empinado
Pés que testemunham, do alto, o corpo morrer, decomposto

E os sapatos, tênis, chinelos, todos calçados que sobram
Choram hiatos de carne perfumados de chulé e Tenys Pé Baruel

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Simples assim

Seu nome é Simplório. Isso mesmo.
Bem, não é bem o nome. É mais como
apelido, mas um apelido
que ganhou pra si status de nome
sobrepondo-se ao nome primeiro
propriamente dito do sujeito
em questão. Seu nome mesmo é Simples,
simples assim. Freqüentar velórios
é seu maior prazer. Gosta mesmo!
Juntou num amálgama o seu nome
com o hobby e virou então Simplório.
Consola viúvas e viúvos,
mães e pais, filhos, filhas, amigos,
amigas, penetras, toda gente.
Não derrama uma lágrima nunca.
Uma rocha do consolo. Um ombro
amigo de lápide em granito.
Autor de lindos e memoráveis
epitáfios. Simples assim. Para
ele veloriar é lazer,
passatempo, exercício de ócio,
um vício. Tem nada demais nisso.
Temos todos nosso quê de excêntrico
por natureza até que se prove
o contrário. Simplório não. É
um cara simples, simplório mesmo,
simples assim. Nunca derramou
uma lágrima sequer em todos
os velórios. Um dia, de alerta
na capela simplinha daquele
tal cemiteriozinho de tantas
catacumbas opressoras, viu –
surpreso – chegar num caixão reles
seu irmão Simplício que não via
há décadas. Atônito, pela
primeira vez, em anos de puro
regozijo em óbitos, chorou.
E chorou uma estátua de lágrimas,
temporal ocular de conflitos
e sentimentos, alma escorrendo
pelas vistas, olhos desfazendo-
se em líquido, pupila em abrupto
derretimento. Chorou, chorou
muito – intenso despedaçar –, muito
nervoso, um oceano pacífico
de lágrimas. Puxa! Pobre, pobre
Simplório! Lágrimas e mais lágrimas
confusas. Simples, simples assim.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Você não sabe o que me aconteceu

Hoje, 07, acordei sozinho, só,
no meu quarto, na cama, abandonado.
Rita deixou o meu lar e a minha vida.
Sobre a cômoda, as cópias das três chaves.

Nunca mais o cheirinho de jiló
frito. Adeus à mania de retratos.
Fim à tara de sexo sobre a pia
do lavabo e aos sundaes de pistache.

Levou junto meu livro do Vinícius,
o CD do Gardel com belos tangos
e os seios novos que eu lhe dei na plástica.

Do casamento só restou o vídeo,
seu forte aroma de cajá teimando
em me seguir na sala e uma lágrima.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

“Vira, Vera, que eu te passo a vara!”

Daí que a tal da guia seguia… Seguia,
seguia e prosseguia esse curso guiando
o grupo por aquela impressionante e mórbida
Évora encapelada de crânios, clavículas,
fêmures, omoplatas, esternos, bacias,
úmeros, rádios, metacarpos e costelas
ou arcadas de gentes várias. Tudo Álvaro
acompanhava dessa procissão turística
e nada acompanhava de registro ótico
nos caminhantes olhos seus, cheios de vácuo,
vazios e que nada varriam, daquelas
gravuras morto-vivas, fúnebres, sombrias,
de tamanha ossatura. Tinha, sim, os olhos
espreitosos, agudos, sadios, vibrantes
e todo o resto para Vera, a guia ossuda,
esguia e com lascivo cacoete lúbrico
com a língua. Não pensava em outra coisa: “Vira,…

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Semantron

desentranhado de uma nota
de rodapé sobre W. B. Yeats


Soa uma vez o gongo
da catedral bizantina
– uma morte se anuncia

Soa duas vezes o gongo
da catedral bizantina
– duas mortes se anunciam

Soa três vezes o gongo
da catedral bizantina
– agonizante ultimato para o dia

Os fios dourados de luz
se banham de piche
para tecer um lençol
de trevas bordado
com estrelas silentes

O redondo rosto
do jovem sorrindo brilho
descerra seu véu
de pálpebras argênteas
tornando-se a moça
de face circular
gargalhando leite

Irmão poeta, irmã caçadora
pena solar, flecha noturna
Castor e Pólux de simbolismos
Caim e Abel de antagonismos

À noite, a concretude da carne
insinuada no olhar ofídico-cidreiro

O que era sopro de pele
transmuta-se
em matéria

Argila e costela redivivas

Uma morte anunciada,
promessa singular
à primeira vista

Duas mortes anunciadas,
dois indivíduos que morrem
na fundação do casal

Três orgasmos e um silêncio
arquejante na madrugada

Mudo o gongo ressona

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Leia também prosa em:

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O espancador lírico

Nós viemos lhe dar uma surra.
Arranque seu sapato, a calça,
meias, também camisa. Fique
só de cueca e corra pra longe,
o máximo que puder em "léguas"
(porque eu preciso da rima interna).
Você tem o tempo aproximado
da gente ler dois poemas curtos
do Bandeira. Depois, reze muito,
muito, enquanto corre, porque minha
gangue onírica vai persegui-lo,
fazê-lo conhecer o lirismo
que não é libertação – vai, corre!