Do tipo lauda. Sem pauta.

Um jardim etéreo, vago,
bem anterior ao nada.
Estéril de sentimentos
e virgem de sensações.
E, não mais repente que
o de repente em que o riso
se fez pranto, uma florzinha
dente-de-leão do pântano,
envolta de lodo e lama,
flor negra, negrinha,
tímido óvulo ou breu,
clorofila transmutada
em nanquim, nasce da entranha
alva no chão. E o poeta
sopra o dente-de-leão
então e o jardim tão branco
ganha letras e palavras
e poesia e se enche
de cor e luz. Entretanto,
uma imagem fugaz,
ainda que poderosa
e techinocolor. Quando
o poeta escreve, tudo
vira vislumbre, miragem.
Toda inspiração primeira
é um oásis translúcido, longe,
além do infinito.
Todo poema é rascunho,
eterno garrancho, risco,
um projeto inacabado.
Góbi, Saara, Atacama,
desertos desertos, todos,
e todos vácuos de lírios,
sopros, perfumes – sepulcros
de versos e versos, túmulos
de estrofes mil, cemitérios
secos de poetas mortos.







